O educador de emoções (Jorge Portugal)
Na década de setenta, com o mundo inteiramente em preto-e-branco, tínhamos que escolher um lado. Os que queríamos mudar o mundo, fazer a revolução socialista e implantar uma sociedade mais justa e igualitária não deveríamos, de preferência, dar bom-dia à turma conservadora ou reformista ou até mesmo aos suspeitos que preferiam o silêncio cauteloso à comprometedora e perigosa exposição de suas opiniões. ”Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar...”; “podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião”; ou, culminância das culminâncias, “vem vamos embora que esperar não é saber”. No coração da esquerda enfezada não havia lugar para “eu te darei o céu, meu bem e o meu amor também”.
Por isso, passei boa parte de minha juventude execrando Roberto Carlos. Para mim (para nós), se ele não era propriamente um agente da ditadura, a ela servia com suas baladas românticas, cantigas de ninar um povo alienado, entorpecido ante o clamor da revolução. Lembro-me muito bem dos meus bate-bocas com um colega de ginásio em Santo Amaro, Heron Magalhães, que amava “as canções que você fez pra mim”, ao que eu contrapunha “o quintal de minha casa não se varre com vassoura...”.
Não preciso dizer da crise de identidade que vivi quando, em 1971, ele “estourou” Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” dedicada a Caetano Veloso. Não podia! Caetano era um dos nossos, da vanguarda musical revolucionária e não ficava bem ser alvo de homenagens do rei da juventude alienada.
Anos (e homens) duros. Duríssimos anos (e homens).
Todo esse filme me veio à mente, sem cortes, enquanto eu assistia ao show comemorativo de 50 anos de carreira do Rei, no último 11 de Julho.
Em meio ao reencontro com aquele garoto enrijecido que parecia rir de mim lá do túnel do tempo, me surpreendi cantando, sem vacilar ou esquecer, todas as canções que Roberto desfolhava do seu repertório clássico. Então me dei conta de que, hoje, aos 50 e poucos, certamente já não me lembro da metade do repertório de Vandré, Caetano ou Edu, mas me recordo inteiramente de tudo, tudo mesmo que Roberto cantou.
Acho que não só eu posso garantir que o mesmo sentimento vibrava em milhões de brasileiros.
Os outros, da chamada “ala emepebista”, compuseram o repertório da nossa fé racionalista, da nossa leitura intelectual do mundo e muito nos ajudaram em um momento de longo silêncio e ranger de dentes.
Mas Roberto falava à nossa emoção, sem sofisticação ou filtros. Acariciou o tempo todo, nossas alegrias e dores de amores. Foi o mestre maior de nossa educação sentimental. Foi fundo. Foi no mais fundo de cada um de nós. E por isso ficou.
Creio que daqui a dez mil anos, quando um ET de outro planeta qualquer vier visitar este planeta extinto pela estupidez humana, e se pousar em algum lugar onde existiu um país chamado Brasil, poderá surpreender-se ao ouvir uma belíssima melodia soprada pela voz do vento: “eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você”. Obrigado, Roberto.
Jorge Portugal