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A carne que nos consome (Matheus Bacellar)


Uma bela reunião de amigos, gente bonita, cerveja, música e uma churrasqueira repleta de carnes suculentas. Picanha, linguiça, asinha de frango, coração de galinha, codorna, um delicioso cardápio de carnes das mais variadas, para satisfazer o desejo dos mais diversos paladares. Tomados pelo prazer que a carne traz, provamos um pouco disso, um bocado daquilo, exercendo um comportamento sem ligação direta com a fome ou com a necessidade daquele alimento, o que nos permite indagar: nós consumimos a carne ou é a carne que nos consome?
 
De onde vem esse “apetite” pela carne? Da necessidade do corpo ingerir proteínas? Da natureza carnívora do homem primitivo? Do sabor irresistível da carne? Ou será que este consumo desenfreado vem de fatores sócio-culturais? Não será o desejo pela carne mais uma expressão do sistema capitalista, onde o consumismo desenfreado de bens e matérias-primas é sinônimo de aceitação social, status e poder? O que estará por trás daquele ditado que diz: “a carne que falta no prato do pobre, sobra no prato do rico”? Não será a carne mais um signo de ostentação do capitalismo e do embate entre as classes sociais?
 
Analisando o princípio biológico do homem, somos um dos pouquíssimos primatas que se alimentam de carne. Ainda assim, sabemos que o homem é um animal onívoro, ou seja: pode se alimentar de outros animais ou de vegetais, assim como ovos, leite, etc. Esta favorável condição fisiológica do nosso aparelho digestivo nos aufere um vasto acervo de alimentos fornecedores de proteínas, eliminando a necessidade do consumo desenfreado da carne. Nossa adaptação aos vegetais é tão desenvolvida, que o aparelho mastigatório e a dentição humana já não se assemelham à dos predadores carnívoros, que apresentam grandes presas como principal característica, estando mais próximos dos animais herbívoros. Além disso, o domínio da agricultura foi um dos maiores passos evolutivos da raça humana, representando o fim do nomadismo e o estabelecimento das primeiras civilizações de organização fixa e complexa.
 
Se a carne não é indispensável ao organismo, tão pouco é à economia. Como produto alimentício, a carne é um verdadeiro “fracasso”. Pelo alto preço da carne frente aos vegetais, pode-se deduzir que ela não é a base da alimentação humana, principalmente em países como o Brasil, onde a maioria da população é de baixa renda. A atividade de criação de animais de corte desvia grande parte da produção de alimentosque poderia ser destinada ao consumo humano, para fabricação de ração animal. Estima-se que 40% de toda a produção de grãos do mundo são destinados à ração animal, grãos que poderiam alimentar 840 milhões de pessoas que passam fome. Na geração de empregos, devido à criação em pasto aberto do gado de corte, a quantidade de postos de trabalho gerados pela pecuária é muito menor do que na agricultura, e a maioria destes empregos estão na atividade de abate e processamento da carne. Esta condição se repete na criação de suínos e aves, onde uma alternativa socioeconômica eficaz seria o incentivo à agricultura familiar, com seu excedente voltado à comercialização, por exemplo.
 
No setor ambiental, o problema da carne torna-se insustentável. Depois do extrativismo da madeira, a principal causa de desmatamento de florestas e matas é a criação de pastos para a pecuária. Estima-se que no Brasil, 16% da Floresta Amazônica foram desmatados com esta finalidade. Devido às rações enriquecidas com grãos, para que os animais ganhem peso, ocorre um grande aumento na flatulência do boi, liberando gases como metano e óxido nitroso na atmosfera. Estes gases são dezenas de vezes mais poluentes do que o CO2. Estes dois fatores fazem a criação de animais de corte responsável por 18% da emissão de gases do efeito estufa, sendo um setor da economia mais poluente do que o de transportes. Estes animais também produzem uma quantidade enorme de dejetos que contaminam o solo, rios e lençóis freáticos.
 
Ainda sob o aspecto ambiental, a produção de animais de corte consome uma grande quantidade água. Estabelecendo uma relação dos litros d’água destinados à produção por kilo de alimento produzido, a produção de carne bovina apresenta uma média de 13.000 a 20.000 lit/ kg, enquanto para produzir 1kg de soja são gastos de 2.300 a 2.750 litros d’água. E mesmo na criação de animais menores como aves e suínos, a quantidade de água necessária é muito maior do que na agricultura.
 
Observando do ponto de vista humanístico, relacionado aos direitos dos animais, a crueldade do processo de abate é algo repugnante. Para diminuir custos, a maioria dos abatedouros ainda utiliza métodos primitivos de abate. O boi recebe uma violenta marretada na cabeça, e ainda vivo, tem sua garganta cortada e sua pele retirada com água fervente. Esta crueldade acontece de forma parecida com os outros animais de corte, como: cabras, ovelhas, porcos, frangos, etc. A forma de criação também é algo deplorável: animais criados em confinamento, sem espaço pra se movimentar para que não percam peso nem desenvolvam músculos, deixando sua carne mais macia. Vivem em ambientes escuros, com um prato de ração enriquecida de hormônios em sua frente, desenvolvendo doenças, alto stress e comportamentos disfuncionais, como agressividade e canibalismo. Neste ponto, os animais perdem sua essência como seres vivos e passam à categoria de produtos da indústria alimentícia.
 
Mas se existem tantos aspectos negativos em relação à carne, porque poucas pessoas falam sobre isso? Porque sociedade e governo não tomam uma atitude frente a este problema? As respostas destas perguntas estão nos interesses econômicos e políticos. Utilizando uma propaganda forte e intensiva, a indústria da carne conquista a mente dos consumidores com uma variedade cada vez maior de produtos e apelos sociais. Além da invasão americana do fast food, possuímos os nossos próprios modelos consumistas para a carne. Ir a grandes churrascarias e rodízios tornou-se um símbolo de status na sociedade brasileira, onde a quantidade e variedade de carnes qualificam tanto o estabelecimento como quem o frequenta, atribuindo valores sociais ao consumo destes produtos. E este é um mercado em constante crescimento no nosso país. Hoje, existem mais cabeças de gado no Brasil do que de pessoas.
 
Poderosos, grandes latifundiários que há décadas estão ligados intimamente ao poder político são os grandes produtores de carne no Brasil. Mobilizam-se para fechar acordos com o governo, recebem incentivos para a criação e por muitas vezes eles próprios ocupam cargos políticos ou de lideranças regionais. Um caso muito recente, envolvendo o prefeito de Pacaraima (RR), mobilizou um grupo de índios que reclamava a posse da terra da fazenda do referido prefeito, fazenda esta que era utilizada para criação de gado em uma área que supostamente pertence a uma reserva indígena.
 
Não discutiremos aqui o sabor da carne nem sua importância na alimentação. A carne é uma boa fonte de proteínas e zinco, ambos importantes ao organismo humano; quanto ao gosto, este fator é muito particular e subjetivo. O que vale à pena discutir é a sua cadeia produtiva, sua lógica de mercado, sua forma de consumo e sua participação dentro da lógica do desenvolvimento sustentável. Ao meu ver, e falo como consumidor de carne, não é preciso acabar com o seu consumo, porém, uma redução drástica de sua participação na dieta humana me parece urgente e inevitável para o equilíbrio socioeconômico e ambiental do planeta. O consumo racional da carne é uma atitude necessária à humanidade, para que a cada pedaço de carne ingerido, não nos venha a sensação de que somos nós, os consumidos.

 

Matheus Bacellar

 


 

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