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Tecendo a poesia (Pasquale Cipro Neto)


Um belo dia, na universidade, ao discutir a noção de ritmo em poesia, a professora cita o jogador de futebol Ademir da Guia como exemplo perfeito. Exemplo de quê? De ritmo, é claro.

 

Quanto sofremos durante a ditadura os que gostamos de futebol. Éramos "alienados", já que nos deixávamos levar pelo "ópio do povo". Na USP, então, a patrulha era inexorável. Ai de quem ousasse falar de futebol numa das sérias – seriíssimas - reuniões no "Rei das Batidas".

 

E eu queria falar de futebol, de poesia e futebol, de futebolpoesia. Um belo dia, vejo num livro de Décio Pignatari (outro doido por futebol) uma referência a uma declaração da Guia relativa à regularidade. Ademir dizia que ninguém - "nem Pelé, nem Picasso" - é capaz de exercer seu ofício sempre com o mesmo brilho. O detalhe é que Ademir negava a própria definição: quando jogava mal, era o melhor em campo. Verdadeiro grego, hirto, Ademir jogava sem olhar para a bola, presa a seus pés "por um barbantinho mágico", como dizia o já saudoso mestre Plínio Marcos, outro doido por futebol.

 

Pois não é que João Cabral de Melo Neto (mais um doido por futebol) resolveu dedicar-se à bela tarefa de poetizar Ademir? O texto é este: "Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo. Ritmo líquido se infiltrando no adversário, grosso, de dentro, impondo-lhe o que ele deseja, mandando nele, apodrecendo-o. Ritmo morno, de andar na areia, de água doente de alagados, entorpecendo e então atando o mais irrequieto adversário".

 

Assim, Cabral teceu mais mágico o mágico tecido do jogo de Ademir. Como fez no impressionante "Tecendo a Manhã": "Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos".

 

A engenharia desse texto é única. Cabral omite termos ("...esse grito que ele (lança) e o lance...; ...que apanhe o grito que um galo (lança) antes e o lance a outro...) que simbioticamente se misturam com o processo químico-físico-sonoro da tecedura da manhã. Esse entrelaçamento atinge o auge em "...e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã...". Qual a função sintática de "os fios de sol de seus gritos de galo"?

 

Na segunda parte do poema, há outra maravilha morfossintático-semântica: "E, se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo, que, tecido, se eleva por si: luz balão". O que é a palavra "tecido" na sua segunda ocorrência? Substantivo? Adjetivo? Particípio que forma oração reduzida? É tudo. É cabralino. É poesia de João Cabral de Melo Neto.

 

Até a próxima. Um forte abraço.

 

Pasquale Cipro Neto

 


 

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